quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Acreditava, até hoje.


Pensava que as coisas más só aconteciam aos outros. Pensava que eu e os meus, estavamos protegidos de tudo, e que o mundo lá fora, que via tão destruido, não passa-se de um mundo apenas para os outros, onde eu nunca iria entrar.
Sempre julguei aquilo uma prisão de porta aberta, em que só quem não quisesse sair é que lá ficava.
Apercebi-me que o meu julgamento era errado: as coisas más não acontecem só aos outros, o mundo lá fora, distruido não é construido apenas para os outros, porque também eu entrei lá. Deixei de acreditar que aquilo era uma prisão de porta aberta. Deixei de acreditar que existem milagres. Perdi a noção dos sonhos, e da noite para o dia, fui obrigada a abrir os olhos para a realidade. As lágrimas engordavam, ao longo do tempo que me ia apercebendo que as coisas estavam a ficar cada vez mais escuras.
A esperança ia-se apagando e o caminho foi ficando cada vez mais estreito até eu querer parar e por um travão naquilo que parecia um pesadelo sem fim.
A luta e o tempo de espera eram intensos e não desistiam de nos por a baixo.
Vi a fraqueza na minha familia, vi a fraqueza na minha mãe. Perguntei-lhe vezes e vezes sem fim "Eles vão aguentar, não vão?" "Eles vão conseguir dar a volta por cima?" "Vai ficaar tudo bem, não vai?" e nunca , nunca obtia uma resposta. Obtia o silêncio, e o tunel dos olhos dela com quilómetros e quilómetros de perfundidade.
Segurava-me a tudo que me parecia estar na vertical e fixo ao chão. Fechava os olhos e pela primeira ou segunda vez pedi ajuda a Deus. Rezei e rezei. Apertava as mãos enquanto sentia os pés dormentes. E pedi que aquela dor acaba-se depressa. Pedi socorro. Pedi que me desse a mão para também eu conseguir levantar aqueles que eu não quero que continuem em baixo...
Olhava o meu primo, ali, quieto, tão desprotegido do mundo e com um grito preso na garganta. Apetecia-me abraçá-lo e deixá-lo partilhar comigo a dor que era dele. Tentei imaginar o que se passaria naquela cabeçinha inocente e mostrar-lhe que também nós estamos do lado dele, que também nós choramos e sofremos com a situação, porque também nós somos como ele.
Reparei também, que a vida nunca é justa. Enquanto alguns lutam pela vida, outros querem acabar com ela. Enquanto uns choram de tristeza, outros riem de felicidade. Enquanto uns estão em segurança, outros nem conseguem calcular o que irá acontecer no próximo momento. Enquanto uns percorrem o mundo, outros têm de ficar quietos. Enquanto uns fazem aquilo que sempre sonharam, outros são obrigados a fazer o que fazem só para conseguir sobreviver.

Chegou o dia 17 de Novembro de 2009. Eram 12h:30m, o telefone vibra e do outro lado ouve-se uma voz e chega uma boa noticia. A alegria penetrou no meu corpo, evaquando todo o organismo. O sorriso não me largava durante um único minuto. Fiz a minha rotina normal até ao fim.

Eram 20h:15m, as lágrimas começam a correr e o organismo começa a expulsar a alegria que nele estava encravada. A alegria e a esperança, para nós acabou. E a vida para ele, terminou.

Tio, descança.

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